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Como One Piece levantou uma discussão sobre personagens trans com Yamato

by Omelete

13th October, 2021

Embora filho de Kaido tenha trazido um debate sobre gênero, o próprio mangá parece deixar a discussão mais confusa

One Piece é mais do que a série de um pirata que estica. Através de muitas alegorias, o mangaká Eiichiro Oda conseguiu introduzir em seu famoso shonen de lutinha uma série de discussões de assuntos bem mais complexos, como militarização e racismo. Recentemente o personagem Yamato, filho do vilão Kaido, acendeu uma pauta que dividiu fãs da obra: embora Yamato se considere um homem e seja tratado dessa forma por todos os personagens, sua identidade de gênero não é respeitada por todos que consomem a história.

Para entender como algo simples acabou se tornando um debate no meio dos fãs de One Piece, reunimos algumas informações que podem elucidar (ou não) essa história.

Quem é Yamato?

Yamato foi introduzido no atual arco de One Piece, ambientado no país de Wano, e rapidamente ganhou bastante destaque por conta de sua força e importância para a história. O personagem é o filho de Kaido, o grande vilão da saga atual, responsável por usar sua força bruta para dominar a região e criar um exército particular com versões artificiais das Akuma no Mi (os Frutos do Diabo que garantem poderes às pessoas). Coisas que acontecem no mundo de One Piece, não é mesmo?

Demorou para que Yamato fosse introduzido na história. O personagem só era citado por Kaido ou pelos capangas, sempre com muito respeito e reverência, e ele surgiu na trama durante a invasão a Onigashima, o clímax da batalha no país de Wano. Luffy “trombou” com Yamato nas dependências da base de Kaido e logo formaram uma aliança para encerrar a guerra, afinal seus objetivos eram muito próximos: assim como Luffy gostaria de libertar o povo de Wano das garras de Kaido, Yamato tem o mesmo desejo do guerreiro lendário Oden e quer abrir as portas do país para as nações estrangeiras.

A questão polêmica começa agora. Yamato não tem os mesmos sonhos do falecido Oden, na verdade ele se autoproclamou o novo Oden e tomou para si a missão de continuar seu legado, acompanhado do diário escrito pelo antigo guerreiro. Isso não tem nada de surpreendente porque, afinal, estamos falando de um shonen de lutinha no qual o protagonista tem o poder de se esticar como borracha, mas um detalhe começou a causar um ruído nos fãs: Yamato é desenhado por Eiichiro Oda com um corpo feminino, porém todos os personagens respeitam a vontade de Yamato e se referem a ele com pronomes masculinos. Isso foi o bastante para que o filho de Kaido fosse interpretado como um homem trans, mas essa leitura não foi uma unanimidade.

A reação dos fãs

Falar que alguns fãs têm inclinações pouco progressistas não é surpreendente no meio nerd ou otaku. Assim como é possível encontrar fãs de X-Men que agem com preconceito quando se fala de minorias, alguns fãs de One Piece ignoram (ou não percebem) algumas narrativas inseridas na trama e reproduzem comportamentos inadequados e opostos à obra. Mesmo que o Eiichiro Oda não introduza as pautas de forma literal e didática, fica claro queOne Piece é sobre um grupo de personagens dispostos a ajudar qualquer pessoa oprimida socialmente, seja por um governo militarista quanto por um ser forte cujo poder subiu à cabeça.

Sobre minorias, precisamos lembrar que One Piece já teve outros personagens representando pessoas LGBTQIA+, como o Bon-Clay ou Emporio Ivankov. Embora ambos sejam mostrados como caricaturas (às vezes até de forma ofensiva), é necessário entender que eles surgiram na história em uma época na qual discussões sobre questões sociais não eram tão fortes como hoje em dia (Bon-Clay apareceu pela primeira vez em 2000, e Ivankov, em 2009). Mesmo assim, o caso do Yamato parece ser complexo.

Ao mesmo tempo que o personagem se considera homem e os demais se refiram a ele com palavras e pronomes masculinos, há uma parcela dos fãs que rejeita esse respeito à identidade de gênero do Yamato. Não só é fácil encontrar pessoas se referindo a ele como mulher como também há os que insistem em corrigir os que se referem ao Yamato com os pronomes masculinos. Matheus, responsável pelo canal All Blue, costuma acompanhar as polêmicas do meio e explica a forma como essas pessoas tratam o personagem na internet: “Alguns já aceitaram sem nem precisar do debate, mas tem muita gente que disse que Yamato é mulher porque tem peito e aparência de mulher”. O youtuber ainda revela que alguns canais especializados em One Piece fazem questão de se referir a Yamato como mulher nas capas e thumbs de seus vídeos.

Se a discussão sobre identidade de gênero em One Piece já parecia difícil com as informações da história, um recente lançamento da Shueisha complicou ainda mais. A série de Eiichiro Oda conta com vários “databooks”, livros reunindo informações sobre personagens e arcos nessas décadas de publicação. Após vários livros, a editora Shueisha parou de lançar esse conteúdo de forma compilada e passou a lançar páginas soltas com personagens mais recentes na trama, e essas páginas foram chamadas de Vivre Cards (nome dado a um papel de propriedades especiais existente no universo de One Piece). “Os Vivre Cards têm a intenção de dar informações oficiais e canon, então eles confirmam coisas que antes eram só especuladas pelo fandom”, explica Matheus.

Com o lançamento do Vivre Card com as informações do Yamato a discussão voltou a repercutir, pois está escrito no box do personagem a informação “gênero: feminino/mulher”. Para o apresentador do canal All Blue, isso foi o combustível que faltava para inflamar uma ala bem barulhenta entre os fãs de One Piece: “com isso tem muita gente do fandom, a galera mais tóxica, que acha que venceu uma batalha, sabe? Aproveitando pra mandar uns ataques transfóbicos com comentários misóginos, machistas, disfarçados de ‘brincadeira’”. Alguns não aceitam Yamato como um homem trans, e defendem a utilização de pronomes femininos usando como desculpa que o personagem não se identifica como homem, e sim se identifica como Oden que, no caso, é um homem. Em vez de promover um debate entre fãs para entenderem melhor as características de um personagem, o Vivre Card foi usado para pessoas reafirmarem suas posições pré-existentes.

Curiosamente há uma outra personagem transgênero no arco de Wano, a samurai Kikunojo, tratada com mais respeito pelos fãs. Ao contrário de Yamato, os fãs aceitam melhor que Kikunojo se identifica como alguém do sexo feminino e usam os pronomes corretamente ao se referir a ela. Quer dizer, quase: “ainda assim tem um ou outro que diz que ela é ‘trap’”, lamenta Matheus do All Blue. No caso, “trap” é uma palavra carregada de bastante preconceito e inaceitável de ser usada para se referir a uma pessoa trans.

Texto inconclusivo

Agora vamos entrar em uma parte mais pragmática nesse debate a respeito do Yamato em One Piece. A língua portuguesa deixa bastante marcado o gênero do interlocutor, mas como é no texto original? Buscando algumas respostas, conversei com Felipe Monte, o tradutor do mangá de One Piece no Brasil, e acabei vendo que a situação é mais complexa do que imaginava.

Se você abrir os volumes 97 e 98 da edição brasileira de One Piece encontrará textos “desconexos” a respeito do Yamato. Ao mesmo tempo em que o rapaz se refere a si mesmo com palavras do gênero masculino, e até mesmo o vilão Kaido chame Yamato de “filho“, as caixas de texto com informações identificam Yamato como mulher.

Quando a gente descobre que o Yamato existe, é com o Kaido especificamente falando do filho dele (‘musuko’ em japonês). Outros personagens se referem a ele com o termo ‘bocchan’ (que na nossa edição ficou adaptado como ‘Jovem Mestre’) que é basicamente um termo pra se referir ao filho (homem) dos outros e também tem a conotação de ser filho de alguém importante“, explica Felipe. No entanto, o tradutor aponta que logo depois o mangá se contradiz: “quando o personagem finalmente aparece e revela o rosto e rasga as mangas do quimono, o box de apresentação o trata como ‘Filha do Kaido“.

Felipe explicou que isso foi o bastante para que chegassem algumas reclamações à Panini, afinal estavam usando palavras de gênero incorreto para se referir ao Yamato. No entanto não se trata de um erro de tradução, pois isso está presente na versão original: “Essa questão de ‘filha do Kaido’ se mantêm em outras partes da história como na apresentação dos personagens no início dos volumes e nas sinopses, e é por isso que mantemos tudo isso nas nossas edições. A nossa regra, por assim dizer, é ter sempre o respaldo do original”. Isso leva a questão a um ponto muito curioso.

Todos os personagens, sejam eles vilões ou heróis, se referem ao Yamato com pronomes masculinos. O próprio personagem usa palavras comumente usadas por homens, como o pronome “boku” (eu) em japonês. Porém, essa identidade do Yamato é desrespeitada aqui no nosso “mundo real” pelos balões de explicação da história e textos editoriais. É como se o Oda ou a equipe da Shueisha entendessem Yamato como mulher, ao contrário de todos os personagens do mundo de One Piece que o aceitam como homem.

O tradutor acredita que a utilização de “filha do Kaido” na introdução do personagem foi apenas uma estratégia do Oda para reforçar a surpresa esperada para a revelação da aparência do Yamato. No entanto, ele também aponta que o texto do Vivre Card e a inclusão do Yamato em um vídeo sobre mulheres fortes de One Piecedeixa claro qual a visão que os responsáveis pela série tem do personagem“.

Curiosamente, esse ruído entre o texto do editorial e as falas dos personagens não ocorre no anime de One Piece, produzido pela Toei e disponibilizado oficialmente no Brasil pela Crunchyroll. No episódio 990, o mais recente lançado no Japão, é usada a palavra “musuko” (filho) no título do episódio, ou seja, tanto os personagens quanto o próprio anime identifica Yamato como alguém do sexo masculino.

Otakus e personagens trans

A relação entre otakus e personagens trans sempre foi bem conturbada, mas ultimamente parece ter aumentado um pouco. Pelo menos é o que constata Lys, uma das podcasters do Otaminas e mulher trans, que conversou um pouco sobre a questão de como os fãs compreendem o Yamato. Para ela, tem sido mais comum pessoas no ambiente virtual agindo de forma mais conservadora e usando imagens de avatar de animes, mas, mesmo assim, Lys ressalta que não podemos dizer que toda a comunidade reage dessa forma: “Querendo ou não, o meio nerd é bem próximo do otaku, e é um ambiente um pouco fechado para minorias, mas ultimamente eu tenho visto que ele se abriu mais e tem tido muito mais debate dentro desse ambiente”.

Na visão da podcaster, a confusão por conta dos textos do mangá tratando o Yamato com gêneros diferentes só complica o debate. “Talvez fosse melhor o mangá ter um pequeno textinho, entre os personagens falando entre si e explicando um pouco em relação a isso. Querendo ou não, quem não tem contato [com essas pautas] fica muito confuso”, argumentou.

Lys também tem uma teoria que pode explicar o motivo de Kikunojo ser mais aceita pelos fãs que o Yamato, além do fato da samurai dos Bainhas Vermelha ter uma aparência em que ela quase não é vista como uma pessoa trans: “A gente vê muito mais na mídia mulheres trans do que homens trans. Vou dizer uma coisa que é meio pesada, é mais comum a sociedade aceitar que um ‘homem’ transicione para uma mulher e sirva para o olhar masculino. É muito mais difícil a sociedade aceitar que uma ‘mulher’ transicione para um homem”, Lys fez questão de gesticular com aspas quando se referiu aos termos “homem” e “mulher”.

Como estamos em uma sociedade patriarcal machista que enxerga o homem como a ponta da pirâmide, há o questionamento quando se vê uma pessoa de um “nível inferior” querendo escalar para o “nível superior”. Novamente, esses termos foram citados pela entrevistada com muitas aspas porque se referem à forma como a sociedade enxerga isso implicitamente.

Bons exemplos

Como curiosidade, perguntei à Lys sobre animes que ela julga terem abordado bem a questão dos personagens transgêneros e obtive uma lista bem interessante. Além de velhos conhecidos do público otaku como Card Captor Sakura e Sailor Moon, ambas séries com personagens não-binários e trans, a podcaster citou Lovely Complexe Paradise Kiss como histórias com bons personagens trans, embora sejam pessoas que têm uma “passabilidade”, ou seja, não são lidos como pessoas trans.

Além desses, ela fez questão de destacar a abordagem que ocorre no filme Tokyo Godfathers, de Satoshi Kon. A protagonista Hana não tem a mesma “passabilidade” dos personagens dos animes citados anteriormente, pois em sua caracterização no filme ela traz alguns elementos visuais atrelados à imagem masculina, como a barba, mas ainda assim é tratada como mulher e respeitada pelos demais personagens do filme.

Por mais que o Yamato tenha promovido esse debate dentro da comunidade de One Piece, é importante ressaltar que nada está escrito em pedra. Como o mangá e o anime ainda estão em publicação, inclusive o arco de Wano nem chegou ao fim, muita coisa pode acontecer a respeito do personagem. Atualmente nos quadrinhos tivemos a introdução de um “novo personagem” que tem relações com o desejo de Yamato, então tudo pode mudar daqui pra frente.

De qualquer forma, fica o aprendizado que tivemos com esse episódio e, quem sabe, teremos mais pra frente personagens que representem melhor as questões apontadas.

via Omelete


by Omelete