• facebook
  • instagram
  • twitter
  • youtube
  • twitch

Dissonante, Cara Gente Branca perde essência na 4ª temporada

by Omelete

9th Novemeber, 2021

Ao apostar em estética teen dos anos 2000, série abre mão de seu maior trunfo

A série Cara Gente Brancachega a sua quarta e última temporada após proveitosos anos no catálogo da Netflix. Para seu último ano, a obra parece ter se inspirado em séries como Glee e High School Musical para tentar encerrar uma história que iniciou com um ritmo completamente diferente. As mudanças bruscas desarmonizam o conjunto com episódios mornos e risíveis.

No encerramento, a série ganha um roteiro que envolve uma tentativa de conectar um cenário afrofuturista a um musical noventista, e capítulos contados através de conversas entre os protagonistas em um futuro não muito melhor que o presente. Apesar de estarem bem-sucedidos e com os sonhos realizados, eles vivem em um mundo onde uma nova doença viral é descoberta a cada meia hora. Nesse clima pandêmico, os personagens fazem encontros virtuais e relembram do passado; é a senha para a trama se dividir em duas linhas temporais e voltar ao tempo da faculdade, com seus dilemas próprios.

As primeiras duas temporadas da série apresentavam uma estética e linha narrativa muito bem definidas e coerentes entre si. Ambos os volumes mostravam de forma didática como o racismo estrutural impacta na ascensão da população negra a espaços de poder. Com diálogos ácidos e assertivos, os personagens mostravam como determinadas situações são enfrentadas de diferentes maneiras no mundo real. As personalidades completamente distintas dos integrantes da Armstrong-Parker também ajudavam a combater visões superficiais sobre as comunidades e mostrar que existem inúmeras maneiras de se expressar a negritude.

Já o terceiro ano da série trouxe grandes mudanças às personalidades e aos rumos dos protagonistas. Foi também nessa temporada que a série abriu mão de seu narrador para ter Giancarlo Esposito explicando os segredos por trás da misteriosa Ordem do X, uma sociedade secreta formada por americanos negros influentes que se mostrou presente até o fim da série, mas sem impactos realmente relevantes na trama.

A linha narrativa de Cara Gente Branca nunca seguiu um caminho ditado por arcos que se estendem por muitos episódios. Apesar da linha temporal bem definida, a grande maioria dos capítulos se sustenta de forma independente. Esse recurso foi valioso para estabelecer uma identidade na série, mas na quarta temporada não funciona como nos anos anteriores.

A temporada final aposta na combinação de série dramática e musical adolescente, mas entrega cenas caricatas e cansativas que, em geral, não combinam com o momento. A teatralização se justifica na trama pela vontade de Troy Fairbanks (Brandon P. Bell) em assumir a organização do evento de final de ano e as recordações dos personagens sobre o último ano de faculdade. As cenas musicais, apesar de estranhas ao enredo, têm uma qualidade considerável. É nítida a preocupação que a direção teve com os trechos cheios de música e coreografias. A gritante diferença entre as temporadas causa estranheza, porém, e a escolha pelo registro musical não se justifica na reta final — quando Cara Gente Branca já tinha seu estilo e suas expectativas bem definidos.

Essa questão da expectativa se torna um problema na temporada na medida em que a série assume para si a responsabilidade — considerando o que Cara Gente Branca representa entre as séries de sucesso da Netflix — de retransmitir a mensagem do movimento Black Lives Matter. É possível argumentar que a temporada não faz isso da forma mais eficiente, num momento em que segue urgente lembrar o assassinato do segurança negro George Floyd, aos 48 anos, em maio de 2020 nos EUA. O movimento é citado, temos diálogos sobre protestos por vidas negras ceifadas, mas tudo acontece de maneira superficial.

Dentre as surpresas trazidas pela temporada final está o último episódio, que ignora a rotatividade narrativa e investe em um caminho diferente do padrão da série. Em vez de apostar em um último programa de Sam White (Logan Browning) na rádio da universidade ou coisa semelhante, a série escolhe uma solução que fecha a ideia da “conversa no futuro” e ainda ecoa o que estamos vivendo do lado de fora, em tempos pandêmicos, da impossibilidade do toque e do encontro. Ignorando o que veio antes, o quarto ano da série possui certo equilíbrio entre pontos positivos e negativos, mas falha ao encerrar o ciclo de uma trama construída durante quatro anos. Talvez por ser uma última temporada os roteiristas e produtores tenham decidido inovar e terminar em nota mais marcante, mas o resultado ficou mais para o ruído.

Cara Gente Branca
Encerrada (2017-2021)
Cara Gente Branca
Encerrada (2017-2021)

Criado por: Justin Simien

Duração: 4 temporadas

Nota do Crítico




Regular

via Omelete


by Omelete