• facebook
  • instagram
  • twitter
  • youtube
  • twitch

Enquanto Isso | Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

by Omelete

2th October, 2021

Mais Asterix, Junji Ito e baratas, Alan Moore e o fim do mundo e três grandes que completam 75 anos

“HQ no Brasil é um sacerdócio, uma missão”, dizia Flavio Colin, em 2000, numa entrevista a Alexandre Maron na Folha de S. Paulo. “Gosto de criar sozinho, na minha prancheta. O Ziraldo diz que sou um bobo, um romântico. Mas sou assim porque não deixei morrer o menino que existe dentro de mim. É o que eu sou, um menino que gosta de desenhar. Se amadurecer, aí sim, viro um bobão.”

A entrevista aconteceu por ocasião de uma homenagem ao artista, do Salão Carioca de Humor. Colin estava com 70 anos e fazia quadrinhos há mais de quarenta. A HQ nacional estava voltando a engrenar no início do século, mas Colin viu pouco desse movimento: ele faleceu em 2002.

Costa diz que está tendo “conversas” com outras editoras no Brasil e no exterior para continuar esta retomada editorial de Colin. No Confins do Universo, ele deixa no ar que todo o material do quadrinista pode ter “outros desdobramentos” além das reedições e exposições, sendo todos voltados para tornar a memória do artista mais presente.

Aqui no Omelete, Francisco Ucha publicou um belo perfil biográfico de Colin no ano passado, no dia em que o artista completaria 90 anos. A história é dura: Colin nunca se sustentou com quadrinhos. O reconhecimento da sua contribuição, infelizmente, veio tarde.

Não que ele tenha deixado os quadrinhos em qualquer momento. Em 2001, Colin deu uma de suas últimas entrevistas ao Universo HQ. Um trecho:

“Vou desenhar até onde o meu sentimento, talento e minha mente disserem ‘Faz!’. O dia que eu começar a ficar muito repetitivo, sentir que chegou minha hora, penduro meus pincéis e vou vender pipoca na esquina. Faço meus desenhos da maneira que eu sinto. Às vezes, agrada! Olha, não se faz nada sem alma. Ou coloca a alma, ou não faz.”

OS IRREDUTÍVEIS

Outra notícia circulou bastante esta semana entre os canais de quadrinhos: Asterix vai voltar a ser editado pela editora Record, responsável pelos álbuns do gaulês no Brasil entre 1983 e 2015.

Daqui a duas semanas sai Asterix e a Transitálica, inédito por aqui. Asterix e a Filha de Vercingetorix já está previsto para o ano que vem. A editora também vai reeditar álbuns que estiverem esgotados.

Em comunicado à imprensa, a presidente do Grupo Editorial Record, Sonia Jardim, disse: “Estamos retomando com muita alegria a parceria com a Hachette para lançamento dos álbuns do Asterix. Nosso contrato tinha vencido e nossa oferta de renovação teria ficado abaixo de outra oferta que eles receberam. Mas, pelo visto, esta outra oferta não evoluiu e retomamos nossas negociações.”

Em 2019, se falou que a Panini publicaria Asterix no Brasil. Foi essa negociação que, aparentemente, “não evoluiu”.

Asterix e o Grifo, 39º álbum de Asterix, sai no fim de outubro na Europa. Com tiragem de cinco milhões, vai ser lançado simultaneamente em vinte idiomas e deve liderar as listas de mais vendidos do ano, pelo menos na França. Pelos planos da Record, Grifo chega aqui no ano que vem.

Desde o 35º álbum, Asterix e os Pictos, as histórias dos irredutíveis gauleses são produzidas pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Goscinny (falecido em 1977) e Uderzo (falecido no ano passado) ainda têm destaque nas capas.

JUNJI ITO TEM MEDO DE BARATA

“Quando eu era pequeno e caminhava pela cidade, eu tinha medo de alguém me perseguir ou que ficassem me observando. Isso passou. Hoje, mais velho, olha, eu tenho é medo da morte. Também tenho medo de baratas. Aqui no Japão elas voam. Em Nova York as baratas voam?”

De uma entrevista de Junji Ito (Gyo, Tomie, Uzumaki) a Tres Dean, na revista GQ. O entrevistador diz que, em Nova York, as baratas não voam, mas são difíceis de matar.

“Pois é. No Japão elas voam e são bem grandes.”

ESCREVER É DESENHAR E DESENHAR É ESCREVER

“Idealmente, não devia haver uma separação entre escrever e desenhar na nossa profissão; tudo faz parte de contar a história. Você faz anotações e as anotações podem ser palavra ou podem ser desenho. Você está ali finalizando a página com cores chiques, mas, se estiver atento, continua tomando decisões sobre a história enquanto desenha em vez de só executar um plano, em vez de ser ilustrador-escravo de si. Não é improvisação, tanto quanto o escritor não improvisa enquanto está digitando no laptop.”

De Brecht Evens, em entrevista a outro quadrinista, Joe Ollmann, no Comics Journal. Um dos melhores papos do ano.

Evens e Ollmann, aliás, produziram dois dos melhores quadrinhos que eu li este ano – The City of Belgium e Fictional Father. Os dois autores ainda são inéditos no Brasil, mas um deles deve ser publicado aqui este ano.

Evens continua: “Veja que eu disse ‘idealmente’. Eu falo de dias de trabalho que rendem, aqueles de pouco ou nenhum e-mail, redes sociais, Netflix, álcool, chocolate nem fofocagem.”

MOORE, O FIM DO MUNDO E O BRASIL

“Olá. Eu sou Alan Moore e vim aqui pedir encarecidamente que continuem a apoiar a Extinction Rebellion.”

É o início do vídeo que foi ao ar no último domingo, em que o veterano dos quadrinhos declara seu apoio ao grupo britânico que está promovendo duas semanas de protestos para exigir medidas contra a crise climática e os governos incompetentes. “É a questão mais importante na história do nosso planeta”, diz Moore.

Na quarta-feira, para nossa vergonha, o alvo dos protestos foi a Embaixada do Brasil em Londres, em manifestação contra o extermínio dos povos indígenas. Os manifestantes jogaram tinta vermelha na embaixada. A polícia prendeu 118 pessoas.

As manifestações seguem diariamente até 4 de setembro. Leia o resto da mensagem de Moore:

“Muita coisa mudou nos últimos poucos anos e, infelizmente, muitas coisas não mudaram. Estamos na mesma situação, precária, e nosso futuro está em jogo. Literalmente por um fio. Apoie a Extinction Rebellion como você puder, porque esta é a questão mais importante na história do nosso planeta. Apoie e, com um pouquinho de sorte, você vai ter um mundo em que seus filhos e netos vão subsistir, viver e vão ouvir quando eles também protestarem. Não sei o que mais eu posso dizer. Essa é a questão mais vital que nos defronta no presente e devíamos fazer de tudo para botar mãos na obra e ajudar. Cuidem-se.”

VIRANDO PÁGINAS

Denis Kitchen, quadrinista, editor e escritor responsável tanto pela difusão do quadrinho underground nos EUA quanto a da obra de Will Eisner lá e no mundo, completa 75 anos hoje. Na segunda-feira, dia 30, Jacques Tardi, um dos nomes mais respeitados do quadrinho franco-belga, autor de Era a Guerra de Trincheiras, O Grito do Povo e da série Adèle Blanc-Sec, também completará 75. E Walt Simonson, eterno grande artista do Thor, mas com grandes passagens por vários personagens Marvel e DC, é o último da semana que também faz 75 anos – na próxima quinta-feira, dia 2.

A semana entre fim de agosto e início de setembro de 1946 foi movimentada para os berçários de quadrinhos.

Novinho da turma de aniversariantes, Joann Sfar, o francês autor de O Gato do Rabino e máquina produtiva de quadrinhos, livros e filmes, completa 50 anos amanhã.

Na terça-feira, dia 31, completam-se 10 anos do projeto Novos 52, a reformulação editorial da DC Comics extremamente criticada na época e largamente fracassada. De lá para cá, a editora já fez outras sacudidas na linha e no momento se encontra à mercê de uma AT&T/Warner Bros. que não sabe o que quer dos quadrinhos – fora lotar a banca de Batman e ver o que cola.

UMA PÁGINA

Concepção do espanhol Alvaro Martínez Bueno, com Raul Fernandez e June Chung, em Justice League Dark n. 21. Saiu ano passado nos EUA, ainda é inédita no Brasil. Fez parte de uma thread muito interessante no Twitter sobre o “Efeito De Luca”: quando um quadro da HQ faz as vezes de palco de teatro por onde o personagem passeia. Ou o equivalente do plano-sequência nos quadrinhos. Também vale a pena ler a explicação do catedrático Sergio Codespoti.

UMA CAPA

Da ilustradora brasileira Janaina Medeiros em Wonder Woman Black and Gold n. 3, lançamento desta semana. É o primeiro trabalho de Medeiros para a DC Comics.

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato. Também é autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

#52 – O direct market da Hyperion

#51 – Quadrinhos que falam oxe

#50 – Quadrinho não é cultura?

#49 – San Diego é hoje

#48 – Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 – A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 – Um clássico POC

#45 – Eisner não é Oscar

#44 – A fazendinha Guará

#43 – Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

#42 – A maratona de Alison Bechdel, Laerte esgotada, crocodilos

#41 – Os quadrinhos são fazendinhas

#40 – Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

#39 – Como escolher o que comprar

#38 – Popeye, brasileiros na França e Soldado Invernal

#37 – Desculpe, vou falar de NFTs

#36 – Que as lojas de quadrinhos não fiquem na saudade

#35 – Por que a Marvel sacudiu o mercado ontem

#34 – Um quadrinista brasileiro e um golpe internacional

#33 – WandaVision foi puro suco de John Byrne

#32 – Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil

#31 – Sem filme, McFarlane aposta no Spawnverso

#30 – HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

#29 – O prêmio de HQ mais importante do mundo

#28 – Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

#27 – Brasileiros pelo mundo e brasileiros pelo Brasil

#26 – Brasileiros em 2021 e a Marvel no Capitólio

#25 – Mais brasileiros em 2021

#24 – Os brasileiros em 2021

#23 – O melhor de 2020

#22 – Lombadeiros, lombadeiras e o lombadeirismo

#21 – Os quadrinistas e o bolo do filme e das séries

#20 – Seleções do Artists’ Valley

#19 – Mafalda e o feminismo

#18 – O Jabuti de HQ conta a história dos quadrinhos

#17 – A italiana que leva a HQ brasileira ao mundo

#16 – Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

#15 – A volta da HQ argentina ao Brasil

#14 – Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

#13 – Cuidado com o Omnibus

#12 – Crise criativa ou crise no bolo?

#11 – Mix de opiniões sobre o HQ Mix

#10 – Mais um fim para o comic book

#9 – Quadrinhos de quem não desiste nunca

#8 – Como os franceses leem gibi

#7 – Violência policial nas HQs

#6 – Kirby, McFarlane e as biografias que tem pra hoje

#5 – Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

#4 – Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

#3 – Saquinho e álcool gel: como manter as HQs em dia nos tempos do corona

#2 – Café com gostinho brasileiro e a história dos gibis que dá gosto de ler

#1 – Eisner Awards | Mulheres levam maioria dos prêmios na edição 2020

#0 – Warren Ellis cancelado, X-Men descomplicado e a versão definitiva de Stan Lee



via Omelete


by Omelete