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Enquanto Isso | Marvel e DC cringeando

by Omelete

30th October, 2021

Duas iniciativas de HQ digital simultâneas, gente queimando gibi no Canadá, Joe Bennett, aniversários, uma capa e uma página.

Anteontem, a DC Comics publicou o primeiro produto da sua parceria com a WebToon: uma série da Família Batman, sob medida para a plataforma em tema, abordagem e arte.

Ontem, a Marvel Comics lançou uma linha de webcomics dentro da renovação do Marvel Unlimited. Não são só adaptações de quadrinho impresso pro digital, mas quadrinhos feitos para o plataforma, pensados pro scroll do celular.

Coincidência? Talvez. É óbvio que nenhum desses quadrinhos foi feito da noite para o dia. Entre planejamento, produção e aprovação, com a importância que esses projetos têm, o material devia estar pronto há algum tempo.

Mas lançar quase no mesmo dia? Aí tem coisa.

A “coisa” é que crianças e pré-adolescentes estão lendo quadrinho. Muito quadrinho. Gente que nasceu nos anos 2010 nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, no Brasil. De vez em quando eles até compram um gibi de papel – dão preferência pelos mangás – mas leem mesmo no celular.

Tem uma geração inteira aprendendo a ler quadrinho, gostando de ler quadrinho, querendo quadrinho. E a “coisa” é que esses quadrinhos não são da Marvel nem da DC.

As duas grandonas dos EUA podiam ficar de fora dessa, se concentrar no público que já têm e comprar cova no cemitério dos elefantes. Só que Homem-Aranha, Batman, Arlequina, Viúva Negra, Shang-Chi e o Pacificador estão em filme, desenho animado, camiseta e mochila do mundo inteiro.

Aí você imagina os engravatados da Disney e da AT&T chamando as subsidiárias pra reunião e botando o pau na mesa: “A gente transformou esse bando de figurinha em marca global e vocês não conseguem vender gibi? Logo agora que a criançada quer gibi? O que vocês tão fazendo de errado?”

Será que eles estão nos gibis errados?

A DC testou essa resposta antes. A parceria com a Webtoon, anunciada no mês passado, é o jeito que a editora – que faz quadrinhos há 85 anos – encontrou de chegar no público que tem menos de 15. Que é quase a idade da própria Webtoon, lançada na Coreia do Sul em 2003. Hoje, não há gibis no mundo mais lidos do que os da Webtoon.

Batman: Wayne Family Adventures, a série DC que estreou na Webtoon esta semana, tem a cara da plataforma: desenho mais estilizado do que se costuma encontrar nos comics de papel (“mais mangá”, se você preferir), tramas mais focadas em relacionamentos do que em ação e, claro, o scroll vertical em vez da virada de página.

Os autores são desconhecidos do público tradicional. Rhett Bloom, desenhista que assina como Starbite, tem mais de 300 mil seguidores no Instagram, e é auxiliade por mais quatro artistas em storyboard, cores e letras. CRC Payne, do roteiro, não tem crédito nenhum em absolutamente nada – pode ser pseudônimo de uma equipe ou escritora.

O primeiro e o segundo episódios tratam da chegada do herói Sinal na Mansão Wayne, para morar com toda a Bat-família de Robins e Batgirl. O terceiro conta um dia na vida de Barbara Gordon dando jeito na Bat-família. Tem muitas piadinhas e acenos pra quem conhece a Bat-cronologia.

É Bat-Turma da Mônica Jovem.

A Marvel Unlimited, dentro da linha que eles chamam de Infinity Comics, apostou em autores mais famosos – famosos para quem acompanha quadrinho tradicional, no caso. O resultado é um pouco melhor.

Jonathan Hickman e Declan Shalvey assinam X-Men Unlimited – que não tem X-Men, mas sim Wolverine. Com o briefing de explorar o que só dá para fazer nos gibis Infinity, Hickman e Shalvey botam Logan a descer – literalmente, verticalmente – na base da E.S.P.A.D.A. dominada pela I.M.A.

Não há nada de revolucionário, nem em termos de trama, nem de Wolverine, nem de webcomics. Mas é uma história bem resolvida. Shalvey, conhecido como bom designer de páginas, segue o pedido e aproveita tanto o espaço quanto o scroll. Na segunda edição, o entrosamento entre a arte e os diálogos de Hickman rende cenas divertidas, como a de Logan socando um capanga da I.M.A.

Gurihiru, ganhador recente do Eisner, assina uma HQ infantil do Jeff Tubarão junto à roteirista Kelly Thompson. Skottie Young, famoso pelas versões bebê de heróis Marvel, faz o roteiro de Giant-Size Little Marvels, com arte de Max Gordine e Jean-François Beaulieu; é a HQ mais bonita da leva. A Infinity da Viúva Negra, por Mark Russell e Anny Maulina, é outra que cria um jogo divertido com a leitura em scroll.

Dá para experimentar um dos quadrinhos “Infinity” da Marvel – o do Wolverine – aqui. Para ler os outros, você tem que se cadastrar no Marvel Unlimited, a partir de US$ 9,99 por mês (dá para fazer teste grátis por uma semana). Já as Wayne Family Adventuresna Webtoon são grátis – mas você pode fazer uma assinatura paga que dá acesso a outros episódios antes de chegarem na versão free. Ainda não me convenceram.

Não é a primeira vez que Marvel e DC dizem “vamos entrar com tudo no quadrinho digital!” A Marvel teve várias investidas em quadrinhos para telinhas desde… 1996 (!), quando lançou os Marvel CyberComics numa parceria com a AOL. A melhor iniciativa da DC, o selo Zuda Comics, existiu de 2007 a 2010. Nesse campo, nada do que as duas grandonas dos EUA fizeram nem durou nem é lembrado.

Nesses vinte e poucos anos, os webcomics foram construindo história até chegar no modelo Webtoon/Tapas/Kuaikan, além de estarem disseminados por Instagram, Twitter e outras redes. Não dá para dizer que essas plataformas serão o futuro: para milhões de leitores, elas são o presente dos quadrinhos.

As iniciativas de Marvel e DC na semana lembram aquele meme com o Steve Buscemi, o velhão que pega boné e skate pra se camuflar no colégio. “How do you do, fellow kids?”. As tiazonas até vieram com a roupa certa pra festa, mas não sabem como se comportar.

Será que aprendem? Ainda dá tempo de entrar na festa? Será que elas deviam estar na festa? Será que vão sair de fininho depois de ver um monte de criança fazendo cara de cringe e vão tentar de novo ano que vem, com outra roupa e outro skate?

O que define o sucesso de um quadrinho, de uma plataforma ou de um mercado é aquela coisa inquantificável, imponderável e implanejável que é o “produto bom”. Não há nada de ruim em você criar firulas narrativas para mostrar o Wolverine massacrando na telinha do celular, nem estudar o que um público diferente do tradicional gostaria de ver no Batman e bat-família. Mas isso é só pesquisa e aplicação – coisa que se faz pra criar o detergente líder do mercado, não pra criar quadrinho bom.

O que os engravatados querem de Marvel e DC não sai de reunião e imposição. Vai sair de autores com liberdade pra botarem na página o que tiverem a fim e essas páginas – telas, perdão – cativarem, sabe-se lá como e por quê, um público que tem a mesma liberdade em relação ao que gosta. É bom que exista ambiente e investimento pra que isso aconteça, mas não dá pra prever quando vai acontecer. Se é que vai.

FOGO NO GIBI

Pelo menos quadrinhos digitais não pegam fogo. A reportagem de Thomas Gerbet para a Radio Canada apurou que um conselho escolar de Ontario incendiou aproximadamente 5000 livros que traziam representações erradas de povos indígenas. Incluindo quadrinhos francófonos como Tintim, Asterix e Lucky Luke.

O problema é com os estereótipos que os quadrinhos propagavam, como dos indígenas vadios, alcoolatras ou imbecis, com as informações históricas imprecisas e com termos racistas (“pele-vermelha”) e/ou desatualizados (“ameríndios”).

A garota de minissaia e decotão que se apaixona por Obelix em Asterix e os Índios é um exemplo do que não se queria nas escolas.

“Você sairia correndo pelo mato de minissaia? Tem gente que acha que sim. Criamos o que se chama de selvagem sexual, a imagem das mulheres indígenas como mulheres fáceis.”

As aspas são de Suzy Kies, descendente de indígenas que participa de um grupo de pressão política pelos direitos dos autóctones e que apoiou a queima de livros. Ela aparece em foto com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

Além dos problemas de representação, Kies defende um princípio que está virando lema no Canadá: “Nunca tratar de nós sem nós” – no caso, de que não se pode fazer um livro ou quadrinho sobre indígenas sem participação de autores indígenas.

A matéria da Radio Canada traz a declaração de uma antropóloga de origem indígena, Nicole O’Bomsawin, que se opôs à queima de livros. “Eles são parte de uma época”, diz a antropóloga. “Devia haver um jeito de dar o contexto e garantir que haja explicações quando se fala de História, em vez de apagar a História.”

Kies discorda. “Num mundo ideal, podíamos dedicar tempo a explicar a situação a cada criança com cada livro. Não vivemos nesse mundo.”

O Canadá passa por um momento de ampla discussão sobre o tratamento aos indígenas e revelações sobre o histórico de genocídio e catequização forçada nos séculos 19 e 20. Em junho e julho, dez igrejas foram incendiadas no país após a descoberta das covas de mais de mil crianças indígenas – alunas das “escolas residenciais”, criadas pelo governo canadense junto à Igreja Católica.

(As “escolas residenciais”, aliás, são um dos temas do último quadrinho-reportagem de Joe Sacco, Paying the Land, que sai no Brasil até o ano que vem.)

A reportagem da Radio Canada diz que uma das fogueiras de livros e quadrinhos foi registrada em vídeo em 2019. Foi tratada como cerimônia: as cinzas foram usadas como adubo para plantar uma árvore, “transformando o negativo em positivo”.

BENNETT

Você lembra do Ardian Syaf? Era um desenhista indonésio, muito bom, que estava em ascensão na DC e na Marvel. Em 2017, depois de dez anos de carreira nos EUA, Syaf resolveu colocar umas referências antissemitas sutis, de fundo, em gibis dos X-Men. Foi demitido pela Marvel uma semana depois de o gibi sair. “Minha carreira acabou”, ele declarou na época.

A se julgar pelo instagram de Syaf, ele anda fazendo arte encomendada por fãs – de X-Men, Batman e outros. Não tem mais créditos em gibis Marvel ou DC.

Nesta semana e na anterior, uma das notícias que mais repercutiu nos EUA e no Brasil é o fim da carreira do brasileiro Joe Bennett na Marvel. Começou com uma condenação pública por parte de seu colega em Hulk Imortal, Al Ewing, e terminou com a confirmação da Marvel de que Bennett não tem “nenhum projeto no futuro” com a editora. Está tudo explicado em duasmatérias de Nico Garófalo aqui no Omelete.

O paraense Bennett – ou Benedito José Nascimento – desenhava para a Marvel há 27 anos – mais de metade dos seus 53 – depois de uma década envolvido com quadrinho nacional. Passou por praticamente todos os personagens da editora, bem como dos da DC, além de ter sido parte importante do Supremo de Alan Moore. O Imortal Hulk era uma consagração: devidamente elogiada, as concepções visuais de Bennett para o terror da HQ deviam virar referência.

Não vão virar. Além de ser um quadrinho manchado, agora faz parte de uma carreira manchada. O futuro está lá no instagram do Ardian Syaf.

VIRANDO PÁGINAS

O canadense Seth lançou A vida é boa se você não fraquejar em graphic novel em setembro de 1996, há 25 anos. O clássico saiu no Brasil recentemente, em 2018, pela Editora Mino.

Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá, saiu no Brasil em setembro de 2011, há 10 anos. Já dá para dizer que é uma das obras perenes dos quadrinhos, a todo tempo descoberta por novos leitores. Moon e Bá tiveram só um projeto grande em conjunto depois, Dois Irmãos, e vêm dando indícios de que estão cozinhando uma nova colaboração…

Aventura & Ficção, série da Editora Abril que marcou época, teve sua primeira edição em setembro de 1986, há 35 anos. A revista começou com material da Bizarre Adventures e outras revistas de quadrinho adulto da Marvel, mas depois se abriu para material europeu e brasileiro. Durou 21 edições, se arrastando, até 1990.

Adrian Tomine lançou a primeira edição de sua Optic Nerve, totalmente independente, em setembro de 1991, há 30 anos. Ele tinha 17. Hoje ilustrador e “graphicnovelista” de renome, ele teve suas histórias adaptadas para um filme francês e está trabalhando nos roteiros de outrasduas adaptações de seus quadrinhos para cinema e TV.

UMA CAPA

De Taiyo Matsumoto, para o primeiro volume de Tokyo Higoro, lançado no Japão em fins de agosto. A nova série do autor de Tekkon Kinkreet, Ping Pong e Sunny trata dos bastidores da indústria de mangá.

UMA PÁGINA

De um “roteiro de Stan Lee”. A piada, até onde eu consegui apurar, é do quadrinista Peter William von Sholly.

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato. Também é autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira (ou quase toda), virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

#54 – Nunca tivemos tanto quadrinho no Brasil? Tivemos mais.

#53 – Flavio Colin e os quadrinhos como sacerdócio

#52 – O direct market da Hyperion

#51 – Quadrinhos que falam oxe

#50 – Quadrinho não é cultura?

#49 – San Diego é hoje

#48 – Robson Rocha, um condado, risografia e Cão Raivoso

#47 – A revolução dos quadrinhos em 1990

#46 – Um clássico POC

#45 – Eisner não é Oscar

#44 – A fazendinha Guará

#43 – Kentaro Miura, o karôshi e a privacidade

#42 – A maratona de Alison Bechdel, Laerte esgotada, crocodilos

#41 – Os quadrinhos são fazendinhas

#40 – Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

#39 – Como escolher o que comprar

#38 – Popeye, brasileiros na França e Soldado Invernal

#37 – Desculpe, vou falar de NFTs

#36 – Que as lojas de quadrinhos não fiquem na saudade

#35 – Por que a Marvel sacudiu o mercado ontem

#34 – Um quadrinista brasileiro e um golpe internacional

#33 – WandaVision foi puro suco de John Byrne

#32 – Biografia de Stan Lee tem publicação garantida no Brasil

#31 – Sem filme, McFarlane aposta no Spawnverso

#30 – HQ dá solução sobrenatural para meninos de rua

#29 – O prêmio de HQ mais importante do mundo

#28 – Brasileiros em 2021 e preguiça na Marvel

#27 – Brasileiros pelo mundo e brasileiros pelo Brasil

#26 – Brasileiros em 2021 e a Marvel no Capitólio

#25 – Mais brasileiros em 2021

#24 – Os brasileiros em 2021

#23 – O melhor de 2020

#22 – Lombadeiros, lombadeiras e o lombadeirismo

#21 – Os quadrinistas e o bolo do filme e das séries

#20 – Seleções do Artists’ Valley

#19 – Mafalda e o feminismo

#18 – O Jabuti de HQ conta a história dos quadrinhos

#17 – A italiana que leva a HQ brasileira ao mundo

#16 – Graphic novel é só um rótulo marketeiro?

#15 – A volta da HQ argentina ao Brasil

#14 – Alan Moore brabo e as biografias de Stan Lee

#13 – Cuidado com o Omnibus

#12 – Crise criativa ou crise no bolo?

#11 – Mix de opiniões sobre o HQ Mix

#10 – Mais um fim para o comic book

#9 – Quadrinhos de quem não desiste nunca

#8 – Como os franceses leem gibi

#7 – Violência policial nas HQs

#6 – Kirby, McFarlane e as biografias que tem pra hoje

#5 – Wander e Moebius: o jeitinho do brasileiro e as sacanagens do francês

#4 – Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

#3 – Saquinho e álcool gel: como manter as HQs em dia nos tempos do corona

#2 – Café com gostinho brasileiro e a história dos gibis que dá gosto de ler

#1 – Eisner Awards | Mulheres levam maioria dos prêmios na edição 2020

#0 – Warren Ellis cancelado, X-Men descomplicado e a versão definitiva de Stan Lee



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