Oi! Me dá um livro?

 

É uma verdade universalmente conhecida que um autor nacional na dura caminhada ao sucesso e munido de sua boa vontade, vai escutar esta frase em alguma fase de sua carreira

 

Antes de iniciar este texto, um caso real:

“Em sete anos de mundo editorial, seis títulos escritos e chegando ao número de dois mil livros vendidos diretamente para o publico leitor, sem contar vendas nas editoras, a cada novo lançamento surge das profundezas literárias o blogueiro de prateleira. Com poucos seguidores e resenhas vazias, o blogueiro de prateleira diz: “Oi, gostei muito do seu livro, pode me enviar um?”

Pode parecer ruindade, mas ao dizer: “Não envio livros físicos” torna-se libertador, pois o blog responde “Ok, não queria mesmo a parceria.”

Isso é a realidade de muitos escritores nacionais, quando não muito o pedido de doação vem de sua própria família. Para alguns escrever é hobby, para outros é profissão, doar um livro para alguém que quer somente engrandecer sua prateleira não só prejudica a carreira do autor, como o abala financeiramente. Cada livro conta.

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Viver de literatura no Brasil é um trabalho de formiguinha e no que se diz blogueiros, peneirar os que se interessam na parceria é essencial para não sair perdendo. A palavra é clara e com o significado implícito, ser parceiro é ajuda é empenho e não simplesmente um “amei” nas redes sociais por um livro físico. Outro extremo desta dura tarefa que é ser escritor no Brasil são os grupos literários, onde se posta de tudo e ninguém comenta. Mesmo com regras claras e com o intuito de ajudar a nossa literatura, os grupos são um depósito de links, onde visivelmente, ninguém se interessa.

Das fotos de prateleiras abarrotadas a números de leituras cada vez mais gigantescos, os blogs de prateleiras só querem status, caçar autores em busca de receberem seus livros, ignorando as horas insones que os autores passaram em lutas diárias para a tão sonhada publicação. Tudo escutar: Oi! Me dá um livro?

Reclamam, descaradamente do preço alto nas livrarias, mas estão com a série de doze livros estrangeiros comprados para aumentar seu ego e dizer que lê obras internacionais, não pesquisam, ou nem ligam em saber, quantas pessoas estão envolvidas na produção. Acham fácil publicar e criticam abertamente a literatura nacional, porque, segundo eles. É chata.

O Ensino brasileiro, não prepara o leitor. Dom Casmurro foi lido somente para saber se houve traição e Memórias Póstumas não nasceu para conhecermos somente a vida de um morto. A falta de preparo e salas superlotadas, faz do brasileiro um publico que enxerga o livro como uma obrigação chata, destinada a provas sem noção e sem o aprofundamento literário que elas trazem. Para o leitor, livro nacional sempre será sinônimo de chatice. Mas estão lá nos Direct do instagram, no inbox das páginas todos os dias, com a mesma fala: Oi! Me dá um livro

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Lembro-me quando iniciei a carreira de escritor e me deparei com dois extremos dos blogs de prateleiras:

 

1 – Um blog e grupo homônimos que com mais de 4 mil membros, utiliza da fala: “Efetuamos leituras para cegos” na sua apresentação em busca de mais exemplares. Pois a desconfiança começa desde já, um grupo com tanta gente, onde não se vê, uma única foto, vídeo ou menção ao projeto apresentado na hora de ludibriar, o autor a enviar seu livro.

2- Um blogueiro jovem, adolescente na época, que de tantos livros sua família o impediu de pedir livros aos autores.

 

Dos dois exemplos, fui a vítima, e não obtive o que foi prometido, muitos acreditam que por ingenuidade de ser um autor iniciante estes blogueiros de prateleiras possam conseguir o que quer, mas quem não aceitaria “parceria” de um blog com 4k de seguidores?

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As vezes o status de ter uma prateleira bonita acaba por prejudicar o outro, mesmo que sem saber, a vontade de ostentar pode fazer mal. Com tanta informação, não conhecer a realidade do escritor é um erro, devemos em vez de pedir, comprar, ajudar sem solicitar nada em troca. Ser parceiro no real sentido da palavra e com o tempo receber as recompensas. Em 2006 abri meu primeiro blog literário chamado Litera Point, hoje extinto, chegou a ter 15 autores parceiros, destes, nem todos eu mantive contato, mas da maioria eu me orgulho de ter comprado, lido, resenhado e entrevistado. A divulgação vai além do pedido, vez ou outra um livro surgia na minha caixa de correio. Fruto de trabalho e empenho.

 

Hoje, com oitenta livros na prateleira, me orgulho dos tempos de blogueiro, mas ainda ensino, meus autores a conhecerem e escolherem bem suas parcerias, para não caírem nas garras, dos blogueiros de prateleira.

 

 

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