Atuação arrasadora de Brendan Fraser salva ‘A Baleia’ do sentimentalismo – 23/02/2023

Segundas chances são mercadoria rara em Hollywood, uma indústria predatória que não hesita em descartar material em desuso. Brendan Fraser, um dos grandes astros da virada do milênio, que por uma série de infortúnios não estava há tempos em nenhuma lista de prioridades, agarrou a sua como se ela fosse a última.

“A Baleia” é o resultado desse esforço. Em um trabalho tão surpreendente quanto honesto em sua vulnerabilidade, Fraser reescreve seu nome na lista de chamada do cinemão. É um papel complexo e não menos polêmico, um risco calculado que serviu para lembrar tanto o público quanto a seus pares o ator meticuloso, sutil e hipnotizante que ele é.

Escolher atores a dedo para filmes difíceis parece ser a vocação do diretor Darren Aronofsky. Em “A Baleia” ele trafega por temas comuns em sua filmografia, como religião, fé, sexualidade e relações familiares dilaceradas, com a diferença que ele parece muito mais confortável em operar com orçamento e expectativas reduzidas. O resultado, como sempre, é divisivo.

Ao adaptar a peça escrita em 2012 por Samuel D. Hunter, que aqui também assina o roteiro, Aronofsky coloca Fraser no papel de Charlie, um professor de inglês obeso que, ilhado em seu apartamento, encontra-se prisioneiro de seu próprio corpo. Pesando pouco mais de 270 quilos, e preso em uma compulsão alimentar irrefreável, Charlie sabe que seus dias estão contados, e planeja usar esse crepúsculo para se reconectar de alguma forma com sua filha, Ellie (Sadie Sink).

Aronofsky sabia que seu filme se tornaria alvo de críticas, em especial pelo retrato de um homem morbidamente obeso. Ele ouviu que deveria ter escolhido um ator com o mesmo porte físico do personagem (Fraser trabalha com uma camada generosa de próteses e maquiagem). Ouviu também que seu filme, em vez de demonstrar simpatia, promovia ainda mais a gordofobia. Colocar seu trabalho no mundo seria uma batalha perdida.

“A Baleia”, por sua vez, é um drama honesto e verdadeiramente emocionante. Se o diretor por vezes grita suas intenções narrativas, em vez de deixar que elas fluam com a história, é Fraser, auxiliado por um elenco de apoio primoroso, quem ancora o filme com uma interpretação contida e sutil, nunca explosiva ou histérica.

Microcosmo de corpos estranhos

Sem ver sua filha há oito anos, desde que saiu de casa quando assumiu sua homossexualidade e o romance com um homem mais jovem, Charlie vê sua saúde deteriorar e tem pressa em reconstruir pontes. O filme, entretanto, não o transforma em mártir, especialmente ao retratar as consequências do abandono em sua filha agora adolescente.

Aronofsky é um diretor habilidoso, usando o confinamento do pequeno apartamento de Charlie como único cenário para um filme que não nega sua origem nos palcos. A claustrofobia de viver em um corpo cada vez mais frágil e menos móvel encontra paralelo em sua casa, um microcosmo que recebe corpos estranhos, nunca os deixando confortáveis.

É com essas interações que “A Baleia” desenvolve sua trama. Liz, enfermeira e única amiga de Charlie (papel da espetacular Hong Chau), quer levá-lo para o hospital, o que ele se recusa veementemente. Ellie é pura raiva e revolta, seu retorno ao convívio com o pai traz uma mistura incômoda de sadismo e abuso, o que é combatido por Charlie com otimismo quase ingênuo. O texto ainda abre espaço para Thomas (Ty Simpkins), que se apresenta como missionário e acredita ser o único capaz de “salvar” o professor.

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O diretor Darren Aronofsky ensaia o texto de ‘A Baleia’ com Brendan Fraser e Ty Simpkins

Imagem: California

Darren Aronofsky nunca foi exatamente um diretor discreto. “Réquiem Para Um Sonho”, seu segundo filme, trouxe um retrato dilacerante do vício em drogas e da lenta desumanização de seu núcleo dramático. Em “Fonte da Vida” ele mistura drama médico, fantasia religiosa e ficção científica sem a menor cerimônia – o filme é ótimo!

O gosto para temas polêmicos nunca esteve longe de seu trabalho. “Cisne Negro”, que deu o Oscar de melhor atriz a Natalie Portman, não poupa críticas à obsessão moderna pela perfeição. “Noé” mexeu com cânones bíblicos ao retratar o divino como algo imperfeito – não por acaso o mesmo raciocínio que alimentou o controverso “mãe!”.

Se “A Baleia” traz grandes acertos – como retratar a origem da compulsão alimentar de seu protagonista de forma bem real -, o filme também pesa na verborragia ao quase impor, em vez de provocar, a empatia do público por seu protagonista. Aronofsky parece se deleitar com o retrato do sofrimento, de forma que somos praticamente compelidos a ter simpatia por Charlie.

A humanidade em seu olhar

Quando “A Baleia” ameaça cruzar a linha para o melodrama barato, Brendan Fraser recupera o filme como a obra de arte genuinamente delicada que ele se propõe a ser. O ator, que parece ter deixado seus próprios demônios para trás, reencontra a fagulha de seu talento, mesmo escondido em uma composição física que limita suas expressões. A humanidade está em seu olhar.

Uma segunda chance nem sempre vinga em Hollywood – que o diga Mickey Rourke, resgatado anos atrás pelo próprio Aronofsky em “O Lutador”, que mais uma vez evaporou em produções mais e mais obscuras. Algo me diz que, com Brendan Fraser, esse filme não vai se repetir.



Fonte: UOL Cinema

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