Somebody I Used to Know é carta de amor ao solteiro

Se muitas comédias românticas norte-americanas conquistam o público pela reunião de amores antigos ou encontros de almas gêmeas, Somebody I Used to Know (2023) cativa pelo oposto. O longa dirigido por Dave Franco e que estreia no Prime Video nesta sexta-feira (10) funciona como uma carta de amor aos solteiros.

Elementos quase definitivos para filmes do gênero, as histórias de amores perfeitas (ou impossíveis) são muitas vezes o gatilho que engaja o público. Seja pelo protagonista que retorna para a cidade em que nasceu e reencontra uma paixão do passado ou pela jovem que sofreu uma desilusão amorosa e conhece o príncipe de seus sonhos logo depois, comédias românticas vivem reciclando clichês para encantar o público com mais do mesmo.

No caso de Somebody I Used to Know, coescrito pelo casal Franco e Alison Brie, a sugestão de que o filme é apenas mais uma história do gênero serve como porta de entrada para uma trama muito mais complexa e interessante. Quase como um O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997) às avessas, a personagem principal (interpretada por Alison) reencontra um grande amor apenas para conhecer mais sobre si mesma.

Na trama, Ally (Alison), showrunner de um reality show nos moldes de Rio Shore, vê sua carreira em Los Angeles encarar um terremoto quando o programa é inesperadamente cancelado. Desiludida, ela decide retornar para sua cidade natal e buscar conforto nos braços da família.

Ao chegar na cidade, ela logo dá de cara com Sean (Jay Ellis), ex-namorado que deixou para trás para perseguir seus sonhos 10 anos antes. O reencontro surpresa logo se transforma em uma viagem ao passado, e os dois passam a madrugada relembrando memórias e fazendo os mesmos programas da época da juventude.

Kiersey Clemons e Alison Brie em Somebody I Used to Know

Kiersey Clemons e Alison Brie em Somebody I Used to Know

Divulgação/Prime Video

O encontro reaquece a chama que parecia apagada em Ally, mas há um grande obstáculo para ela tentar reconquistar o ex: Sean está noivo de Cassidy (Kiersey Clemons) e vai se casar no fim de semana seguinte. Apesar do susto, ela usa o passado para se reaproximar da família de Sean e ficar perto para, assim que possível, roubar o bonitão para si.

Mesmo que à primeira vista Somebody I Used to Know pareça ser um filme sobre duas mulheres na disputa pelo mesmo homem, o longa de Franco se revela muito mais atual do que outros do gênero. Na missão de reconquistar Sean, Ally se “infiltra” no casamento, mas a aproximação com Cassidy a faz repensar não apenas suas atitudes do presente, como também suas escolhas do passado.

Para Ally, é mais fácil se esconder atrás de questionar se Sean era “o escolhido” em vez de encarar uma verdade mais dura: ela mudou tanto sua própria carreira que se afastou do que realmente a faz feliz, ser uma documentarista. Ao conhecer Cassidy, ela enxerga a mesma devoção aos sonhos que costumava ter enquanto jovem –assim como os mesmos problemas. A noiva abriu mão de sua banda para ser a mulher que o amado precisa, mas renegar suas próprias vontades mostra que tanto Cassidy quanto Ally precisam respeitar seus desejos, independentemente do que o egoísmo de Sean diz.

O filme fica ainda melhor quando Ally percebe que pode ganhar mais ajudando Cassidy a resolver seu dilema de desistir de sua carreira por Sean –mesma decisão que a protagonista tomou tantos anos antes. Essa escolha de desenvolver os personagens de maneira inovadora impulsiona a trama em uma direção fascinante, ao mesmo tempo em que fornece motivações mais fortes e riscos psicológicos. Há mais em jogo para todos os três protagonistas principais do que um simples “e viveram felizes para sempre” no final.

Somebody I Used to Know não atribui um relacionamento fracassado às circunstâncias ou mesmo a más escolhas. É simplesmente a resistência respeitosa do amor, mesmo que essa pessoa não seja a “certa”. Para os solteiros, há a valorização das escolhas em prol de seu futuro do que aceitar seguir em um relacionamento fadado à ruína. Entre perseguir sonhos ou apostar em ilusões sentimentais, a primeira sempre terá um gosto melhor.



Fonte: UOL Cinema

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